Levante-se o Réu

Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. São relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide. Às sextas, depois das 18h30.

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Levante-se o Réu

Um prédio desgovernado

O ano acaba e o governo da maioria - ou a maioria do governo, porque onze já se foram - continua, mais ou menos. Agora é como um prédio cheio de problemas. Gastos imprevistos, obras inacabadas, passados obscuros, esbulhos do património, atas aldrabadas, desaparecimento súbito dos inquilinos e notícias inacreditáveis nos jornais da paróquia. O governo parece uma reunião de condomínio que começa bem, passa para gritos e portas a bater e termina à estalada no átrio. Vizinhos-ministros que se detestam.

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O rapaz do carrapito

O rapaz sentara-se no seu fato de treino verde, o cabelo num carrapito de tranças grossas que serpenteavam em várias direcções, qualquer coisa de Medusa. Não parecia medroso, triste ou aborrecido, só curioso. Levantou-se para dizer o nome, a morada e, finalmente, que não queria falar sobre o assunto que o trazia ali. Sentou-se e o tribunal ligou o vídeo de Lisboa para Espinho, para interrogar o homem que prendeu o rapaz há um ano. Era na altura polícia das "equipas de intervenção rápida em Benfica", foi à tarde, estava com um colega a patrulhar o bairro e viram dois rapazes numa mota, em cima do passeio. Os dois polícias estavam à civil, isto é, à paisana ou, como agora se diz, piorando as coisas, descaracterizados.

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Guerra nos aviões

Há muitos anos, acompanhei jornalisticamente o chamado mundo sindical, a luta dos movimentos, comunicados e contra-comunicados, conferências de imprensa, marchas ruidosas, apitos, piquetes, cornetas, cartazes, gritos, pré-avisos. Greves, despedimentos colectivos. Subidas e descidas de avenidas... "Todo-Bom, Todo-Bom, fora da Telecom!" "A luta continua, não-sei-quantos para a rua!" Era uma mistura de exaltações e ofensas mútuas entre patrões e representantes dos trabalhadores, e recordei tudo isso quando há dias um sindicalista, com o sorriso e a pele blindadas pela experiência, com voz de barítono, começou o seu julgamento:

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Ziguezagues em Lisboa

Os polícias disseram que o carro descia aos ziguezagues a Avenida da Liberdade e que foi por isso que lhe deram ordem de paragem, mas o carro não parou. Foi o prelúdio de uma peça de teatro cheia de acção e sentimento, com pormenores de encenação muito interessantes. Ainda agora, que recordo este caso de tribunal em plena tempestade de Lisboa, olhando da varanda a muralha de água, consigo imaginar um carro com quatro homens, ziguezagueando avenida abaixo, nadando na madrugada, como se levado pela enxurrada até às sarjetas entupidas.

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Uma alegria iraniana

Há em Lisboa uma grande loja de tapetes que também vende produtos iranianos e é aí, num andar de cima do bairro de Benfica, que se encontra o verdadeiro, o melhor, pistachio do Irão. O senhor Wahid contava isto na sala de audiências, mas já tinha feito o mais importante: desistia da queixa contra o português que o agrediu na rua, quando ia despejar o lixo. É um homem de paz. O senhor Wahid aprendeu português no Brasil e está preocupado com o Irão, cheio de protestos, violência, mortos, desde o primeiro assassínio da jovem Mahsa Amini pela polícia dos costumes, por supostamente não usar bem o lenço islâmico.

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A menina nervosa

Estava há pouco a ver, nas televisões, as forças armadas ucranianas a pendurarem bandeiras no centro de Kherson, bandeiras azul-céu e amarelo-seara na capital que há semanas Putin jurou ser sua "para sempre" (como é espúrio o sonho dos ditadores quando um povo se levanta pela liberdade) e pus-me a pensar no mecanismo do passa-culpa, porque isto anda tudo ligado, como dizia Eduardo Guerra Carneiro. Logo à noite tentarei ouvir os dislates dos incompetentes majores-generais portugueses que não acertaram uma desde o princípio, defendendo na TV, desde 24 de Fevereiro, dia 1 da invasão, que o genocida russo era infalível em força e inteligência. Onde está o homenzinho agora? "Mobiliza-te tu, rato careca!" - como escreveu na rua um incrível russo, logo levado pelos serviços secretos. Espero que estejas vivo, incrível russo!

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O velho falido e as start-ups

Dá-se o caso - uma desgraça nunca vem só - de os tribunais criminais de Lisboa serem mesmo ao lado da Web Summit e vice-versa. Talvez 200 metros, ainda ontem medi a distância em passos no Parque das Nações, do Altice Arena e FIL ao Campus de Justiça. Oh, como se aprende neste caminho e destino. Caía uma chuva molha-parvos e molha-unicórnios mas, fora o meu preconceito contra espetar à força um corno na testa de um cavalinho, nada tenho contra novas tecnologias e os seus génios bilionários, por isso vos escrevo, vos gravo e a minhas palavras e voz são transmitidas em coisas que eles inventaram. Sou grato a quem me ajuda neste trabalho de ouvir e de ver o mundo. Por isso, também agradeço ao jovem brasileiro que, na fila gigante da entrada da Web Summit, desenfiado numa boina que era quase hipster urbana, quase rural, quase chapéu de Halloween, quase toldo da praia da Figueira, se alavancou para cima duma mocinha com cartão Web Summit ao pescoço: