Levante-se o Réu

Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. São relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide. Às sextas, depois das 18h30.

Uma alegria iraniana

Há em Lisboa uma grande loja de tapetes que também vende produtos iranianos e é aí, num andar de cima do bairro de Benfica, que se encontra o verdadeiro, o melhor, pistachio do Irão. O senhor Wahid contava isto na sala de audiências, mas já tinha feito o mais importante: desistia da queixa contra o português que o agrediu na rua, quando ia despejar o lixo. É um homem de paz. O senhor Wahid aprendeu português no Brasil e está preocupado com o Irão, cheio de protestos, violência, mortos, desde o primeiro assassínio da jovem Mahsa Amini pela polícia dos costumes, por supostamente não usar bem o lenço islâmico.

- Infelizmente as pessoas... os que estão mandando no nosso país também não são bons. Estragaram tudo.

A juíza mandou entrar o agressor do senhor Wahid. Era um homem muito grande, de cabelo oxigenado.

- Foi o senhor que bateu naquele senhor?

- Bati, não. Eu não bati em ninguém.

- Não bateu? Mas não é o senhor Márcio?

- Sou, mas...

- Ouça a senhora procuradora, se faz favor!, ordenou a juíza.

- É o seguinte: aquele senhor teve a boa-vontade de desistir do procedimento criminal contra si. Eu não sei se o senhor está a entender o alcance disto. É que não irá haver julgamento e obviamente o senhor sai daqui como entrou, sem condenação nenhuma. Mas só porque aquele senhor teve a bondade de desistir do procedimento criminal. Portanto, o senhor, no mínimo, pede desculpas àquele senhor, acho que é o mínimo...!

E a juíza:

- Ouviu, senhor Márcio? Estou à espera que o senhor peça desculpas ao senhor.

Silêncio, silêncio. O grande corpo de Márcio oscilava na cadeira como um arranha-céu em terramoto, o centro de gravidade estável, mas tudo a tremer à volta. Não queria pedir desculpas nenhumas e as duas magistradas perceberam isso.

- É que o senhor é capaz de sair daqui com uma condenação. Tem 50 por cento de hipóteses.

- Até porque temos as imagens, não é?, continuou a procuradora.

Márcio abanou o cabelo oxigenado.

- As imagens não...

- As imagens não?!...

E a procuradora levantou um papel, o fotograma de um vídeo de vigilância com o punho de Márcio no queixo do iraniano.

- Eu peço desculpas ao senhor, apressou-se Márcio.

A juíza virou-se para o senhor Wahid:

- O tribunal agradece o seu grande gesto em desistir da queixa. E também lhe pede que aceite as desculpas do senhor arguido.

- Está bem, senhora.

A natureza semipública do crime - ofensa à integridade física simples - permite a desistência por parte do ofendido, desde que o arguido também esteja de acordo. Estava encerrada a audiência.

- Senhor Wahid, mais uma vez obrigado pela sua presença e felicidades para a sua esposa e para os vossos filhos. Bons êxitos aqui e que sejam, na nossa terra, muito bem recebidos.

- Posso dizer uma coisa?

- Pode.

- Na minha terra, quando entra num ambiente assim, quando a gente entra para um ambiente em que vai ser julgado por ​​​​​​​alguma coisa, tem que entrar com medo. Tem que entrar com muito medo e sair com mais medo ainda. Mas aqui eu vejo a risada, o sorriso de vocês e é maravilhoso!

- Quem tinha de entrar com medo era aquele senhor, ele é que vinha ser julgado.

- Sim. Mas o ambiente é muito pesado. Mas adorei o ambiente daqui. Enfim, tomara eu nunca mais voltar aqui...

- É isso.

Maravilhoso, disse Wahid. Mas quantas alegrias e quantos desapontamentos o esperam, senhor Wahid.

O autor escreve de acordo com a anterior ortografia

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