Levante-se o Réu

Crónicas de justiça de Rui Cardoso Martins. São relatos de vidas que se cruzam com o poder da lei, o braço da justiça e as circunstâncias de cada um. E quando se levanta o réu, é o juiz que decide. Às sextas, depois das 18h30.

Ziguezagues em Lisboa

Os polícias disseram que o carro descia aos ziguezagues a Avenida da Liberdade e que foi por isso que lhe deram ordem de paragem, mas o carro não parou. Foi o prelúdio de uma peça de teatro cheia de acção e sentimento, com pormenores de encenação muito interessantes. Ainda agora, que recordo este caso de tribunal em plena tempestade de Lisboa, olhando da varanda a muralha de água, consigo imaginar um carro com quatro homens, ziguezagueando avenida abaixo, nadando na madrugada, como se levado pela enxurrada até às sarjetas entupidas.

Logo a abrir, um facto: Lúcio foi, dos quatro viajantes, o único que colaborou. Várias vezes a polícia descreveu a "sua postura colaborante". Contou um dos polícias:

- Saco do bastão e dou na mão do que agarrara o André. O outro indivíduo, que aliás é hoje aqui testemunha, foi sempre o único calmo e que sempre obedeceu às nossas ordens.

Segundo a polícia, deu ordem de paragem, foi desobedecida e dois agentes começaram a correr quando o carro parou no semáforo.

- Quando saíram do carro, eles tentaram trocar para o outro lado, para fugirem.

O condutor foi apanhado mas começou de novo a andar, explicando ao guarda "o senhor não me toque!" E um dos polícias respondia: "eu não tenho de lhe tocar, o senhor só tem de obedecer." Agora começa realmente a complicação.

- Foi quando o agarrei e o atirei ao chão. E veio o outro que me agarrou. Queriam lograr a fuga. Então há mais um que me agarra na parte de trás do casaco e começa a puxar-me para trás. Esse foi sacado de cima de mim.

Apareceu, portanto, alguém que veio agarrar o segundo polícia.

- É então que eu dou com o bastão no que estava a agarrar o meu colega. Mal dei a cacetada. Consegui algemá-los.

Era uma estranha escultura humana no chão: um polícia a agarrar um homem, um segundo homem a puxar o polícia pelas costas, um segundo polícia a puxar este, um quarto homem que veio agarrar o segundo polícia. Foi este que levou com o bastão. Vieram reforços e acabaram todos algemados, menos um. Nesse caso, onde estava esse homem? Estava, disse várias vezes o polícia, a "colaborar".

- A única pessoa que foi colaborante, devo, dizer foi...

- Já disse, suspirou a procuradora da República.

- ... foi a testemunha.

O Lúcio. Hoje, aliás, o único presente. Os três homens detidos naquela noite não apareceram no tribunal. Só que o dito "colaborante" não colaborou nada com a polícia. Disse que tinha saído do seu restaurante. Iam levantar dinheiro numa caixa.

- Eu ia no pendura, na frente. De súbito eu vi que vinham dois polícias correndo atrás de nós.

- Não viram o sinal de paragem?

- Se tivéssemos visto, não íamos parar 120 metros à frente. Tínhamos ido embora e dizíamos que não tínhamos visto.

Pararam ao lado de um banco e de uma loja de malas de luxo.

- Eu já fui militar no Brasil. Sempre achei a polícia aqui muito educada. Até batem a continência, coisa que nunca acontece no Brasil...

Segundo Lúcio, dois dos homens só tinham ido tentar "apaziguar" os polícias, que batiam com o bastão.

- Estavam um pouco exaltados. O Joaquim até disse: "cuidado que vocês estão a ser filmados aqui, o CCTV do Hotel Tivoli." Foi atingido na cabeça, nas costas, foi ao chão.

O advogado de defesa lembrou que, "à data, também os arguidos apresentaram queixa pelo uso excessivo de força policial, porque foram agredidos. A testemunha Lúcio, que parece aliás imparcial, e que até os agentes descrevem como calmo, não coincide em nada com o depoimento dos agentes. O depoimento do senhor Lúcio também merece respeito." O Lúcio, dito "colaborante", parecia colaborar, agora, com uma versão mais aproximada do que se passou nessa noite de ziguezagues em Lisboa.

O autor escreve de acordo com a anterior ortografia

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