Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

A vida ofereceu a Fernando Gomes a glória e o inferno

1.

O jogo de Portugal com a Suíça não pode - não pôde - ser visto por Fernando Gomes.

No passado 26 de novembro, dois dias após o início do mundial do Catar, e na véspera de Portugal se estrear com o Gana, não conseguiu aguentar mais e deixou-se ir.

Infelizmente, não viu jogos da nossa seleção ou de outra qualquer. Mas também é verdade que na sua cabeça não deve ter sido prioritário o sonho de conquistarmos o mundial.

É que, o "bibota" - como era carinhosamente tratado pelos adeptos do FC. Porto - partiu com o som da sua bebé, a vozinha carinhosa de Maria Luísa, os abraços da sua princesa mais pequena, o "papá querido" inconfundível, a memória dos primeiros passinhos, o medo das primeiras febres ou da hipótese de cair do berço, as roupinhas impecavelmente arrumadas num quarto que o comovia por estar carregado de um futuro que não sabia se iria poder presenciar.

2.

Ele foi um dos melhores futebolistas portugueses de sempre. O maior marcador de golos da história do FC. Porto, um dos três melhores da história do país.

Morreu com 66 anos.

Nos últimos dois da sua vida chorou mais do que alguma vez chorara antes.

De alegria.
E de tristeza.

Uma alegria funda, de agradecimento pela presença de Alexandra, a mulher que o amou até ao último dia e que lhe ofereceu a possibilidade de ser pai quando já não imaginava ser possível.

Uma alegria funda pelo nascimento de uma menina que o fez ver a vida de uma maneira completamente diferente. Não a viu completar os três anos, mas fez questão de celebrar com toda a família e amigos num batismo que foi... também... uma despedida.

Mas uma alegria que não superou as lágrimas de tristeza.

Pelo diagnóstico de um cancro no pâncreas que quase o condenava à partida. Deixou-se ir abaixo, mas rapidamente acreditou que era na luta que iria vencer. Foi extraordinário o modo como combateu pela vida - e quando se perde combatendo não há nada que se possa lamentar.

Lágrimas de tristeza pelo diagnóstico e por uma tragédia impensável. A morte da sua filha, a Filipa que ele sempre tratou com um amor inclassificável, a sua princesa maior a quem abraçava como se não tivesse crescido.

A notícia apanhou-o de surpresa. Um dia telefonaram-lhe e ele não deve ter compreendido muito bem o que do outro lado diziam, nenhum pai encontraria forma de perceber que uma filha com 32 anos fora encontrada morta num apartamento.

3.

A Filipa não conheceu a Maria Luísa.

Morreu dois meses antes da bebé nascer.

Muitas lágrimas passaram por Fernando Gomes - como explicar que a vida lhe pudesse oferecer futuro, mas que em troca lhe tivesse levado a outra filha?

Como era possível ter tanto caminho para caminhar, com uma mulher a quem tanto desejava oferecer o mundo, e a vida lhe tenha oferecido em troca um dos cancros mais difíceis de combater?

4.

Fernando Gomes morreu há uns dias.

Não viu hoje o Portugal-Suíça.

Nem verá, pelo menos em carne e osso, o crescimento da sua filha bebé.

Ou os sucessos e dúvidas do filho Martim - já homem, mas com tudo à frente.

Foi sempre um homem diferenciado.

No seu tempo de jogador levava livros para os estágios, falava como se não pertencesse ao futebol numa altura em que os jogadores eram ao contrário de hoje, na sua maior parte, pessoas simples e sem grande instrução.

Era uma estrela.

O seu cabelo e os seus carros desportivos eram tão lendários como as suas cabeçadas para dentro da baliza.

Fernando Gomes era também uma pessoa que tratava bem as outras pessoas. Que as tratava como se elas fossem especiais e únicas.

E foi o único a sair do FC. Porto para o Sporting sem perder a credibilidade junto da sua gente.

Por isso, no seu funeral estiveram milhares de pessoas. Por isso, estiveram representantes de todos os clubes.

Celebraram um homem bom.
Que marcava golos como quase ninguém.

E a quem a vida tratou muito bem e muito mal.

Ofereceu-lhe e tirou-lhe.
Deu-lhe e roubou-lhe.
Permitiu-lhe a glória e obrigou-o ao inferno.

Obrigado, Fernando Gomes.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de