Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Aos que votam no Chega

1.

Perdoem-me a ousadia de uma carta aberta que não pediram para receber.

É que vejo tanta gente a desistir, tanta gente a achar que cada um de vocês é um caso perdido, que não vale a pena tentar o diálogo com quem não deseja dialogar, que é uma conversa de surdos, que a única coisa possível é esquecer-vos e prosseguir.

Vejo tanta gente a desistir, mas eu não acredito nisso.

Alguns (ou mesmo muitos) de entre vós estão confortáveis a militar ou a combater por ideias racistas, gostam da violência do confronto, adoram a ideia de um dia derrubar a democracia e construir um projeto qualquer com um líder providencial que acreditam está ungido por um qualquer Deus.

Alguns fazem-no por puro oportunismo, vocês sabem que é verdade.

Conhecem-nos melhor do que eu.

Esta carta aberta não é para quem está confortável com a agressividade, com quem deseja partir para a porrada, com os que olham com ódio, com os que parecem ter esquecido que existem bons sentimentos, que na vida há coisas maravilhosas e não apenas ressentimento, maus pensamentos, más palavras.

2.

O que vos quero dizer, com toda a sinceridade, é que não podem desistir da democracia. Não podem desistir da vida, de estar do lado certo, de contribuir todos os dias para que o mundo mude para melhor.

Sei que estão desiludidos.

Sei que estão ressentidos com a vida. Que muitos têm sofrido nas fábricas, nas empresas, com o desemprego, com a falta de perspetivas, com gente que vos humilha, com uma vida de merda que não merecem.

Mas o caminho, acreditem, não é por aí.

Não é pela vingança, não é pela tentação de atear fogo ao sistema, não é também por um pacto com uma ideia de destruição - sabem, por estranho que vos possa parecer, as ervas daninhas quando crescem são imparáveis, rebentam-nos por dentro, tornam-nos azedos e amputados de afeto.

3.

Compreendo, sou capaz de compreender.

Muitos de vocês pouco ou nada têm a perder.

Mas não é verdade.

Temos sempre mais a perder.

E sobretudo temos muito a ganhar.

Muito a conquistar.

Se acharem que é no Chega, muito bem.

Será um desperdício de energia, um desperdício do que em cada um poderia crescer de bom.

Mas, no final das contas, a vida é vossa.

E se estão confortáveis com o desconforto permanente nada haverá a fazer. Cá estaremos para o combate.

Por mim, comprometo-me a nunca desistir das pessoas, a nunca desistir de vos convencer de que o caminho é o da democracia e do respeito pelas diferenças.

Eu não desisto.

Não desistas também.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de