Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

João Baião: uma estrela sem "caganças"

1.

A SIC faz hoje 30 anos.

Sei que vou parecer um velho a falar, mas foi ontem que Alberta Marques Fernandes apresentou o primeiro espaço informativo de uma estação de televisão privada em Portugal.

O país mudou nestes 30 anos.

Mas muito do que o país mudou se deve - para o bem e também para o mal - ao nascimento de uma nova forma de chegar às pessoas, transformação que alterou o paradigma político, social e cultural.

Para o bem, a SIC (e depois a TVI e os projetos que lhe sucederam) trouxeram mais pluralismo, uma informação que aprofundou o poder de escrutínio do jornalismo e uma maior proximidade e afetividade entre quem faz e quem vê.

Para o mal, as televisões privadas criaram as condições para uma ditadura do consumidor; passou a ser importante oferecer às pessoas o que elas querem, o que vai ao encontro dos seus mais primários instintos.

Eis um terrível paradoxo.

Por um lado, o respeito pelo desejo legítimo da audiência. Por outro, o risco evidente de transformar o combate pela audiência - e a absoluta necessidade de lucro - numa legitimação do populismo.

2.

É uma data importante.

Trinta anos da SIC que devem, ainda assim, ser celebrados e aplaudidos.

Poderia corporizar os aplausos num ou numa jornalista.

Num ou numa estrela de entretenimento.

Na memória de Emídio Rangel ou na visão de Francisco Pinto Balsemão.

Mas preferi escolher João Baião.

Que no próximo sábado faz 59 anos.

E que é, na minha opinião, a figura mais emblemática destes 30 anos da SIC.

Quando nos surgiu no "Big Show SIC" abrimos a boca de espanto. Quem seria aquele rapaz que não parava um segundo, que raio de energia era aquela?

3.

Passaram 30 anos e João Baião continua a ser amado.

Já não salta ou corre como antes, mas entre ele e os portugueses comuns há uma ligação quase familiar.

O João interessa-se e gosta genuinamente das pessoas. Tem curiosidade sobre elas e as suas histórias. Emociona-se com o mundo e é incapaz de uma birra de vedeta - em trinta anos não há memória de uma única má palavra.

Poderia ter tido uma falha, um dia mau, um arrufo.

Nada.

Continua a estar com os portugueses como se tivesse todo o tempo do mundo.

Como se nunca tivesse pressa.

Como se lhes pertencesse, como se fosse essa a sua missão no mundo.

4.

Em casa tem animais, muitos animais.

Trata-os como se fosse a sua missão, mas nunca o ouvimos arrogar-se de qualquer superioridade moral por fazê-lo.

Fala das suas origens com orgulho - comovente o que diz da mãe quando diz da mãe. Não esconde nada.

Não tem caganças.

Por vezes até parece esquecer-se de quem é.

Um dia, num centro comercial passou por mim e eu virei a cara para ter a certeza de que era mesmo ele. Para meu espanto também virara a dele - como se ele fosse um anónimo e eu o João Baião.

Fiquei muito impressionado.

Pela curiosidade nos seus olhos, uma curiosidade que a maioria das pessoas na sua condição deixa de ter.

Só um tipo realmente grande seria capaz de a manter.

Só um tipo grande consegue apagar-se para que outros possam brilhar.

Parabéns à SIC.

E parabéns ao João Baião que ao fim de 30 anos continua a gostar de pessoas e a abraçá-las como no primeiro dia. Como se fosse uma criança grande que nos oferece todos os dias uma hipótese de também o sermos.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de