Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Luís Miguel Cintra está vivo e continua a ser um monstro

1.

Quis dedicar este postal a Luís Miguel Cintra.

Sei que é agosto, devia escrever postais mais leves, mais de Verão, mas tem de ser hoje.

Não amanhã ou depois de amanhã.

Não quando despertarmos com a notícia de que partiu.

Despedi-me da Eunice e do Jorge Silva Melo e não o fiz em tempo útil; esquecemo-nos tantas vezes do que é mais óbvio. De dizer, mesmo aos que amamos que os amamos, que os admiramos, que nos são importantes.

Quero escrever hoje ao Luís Miguel Cintra.

Dizer-lhe tudo isso.

É que esta manhã voltei a folhear uma revista que guardei do Expresso, guardei-a por ter sido a última entrevista maior de Luís Miguel.

Comovi-me com o seu olhar.

Um olhar ausente na sua fortíssima presença.

Um olhar carregado de personagens, de vozes, de sombras.

Volto a afastar os meus olhos dos dele.

Tento outra vez, afasto-me novamente.

Nunca o seu olhar foi tão forte como agora, inexpressivo de tanta expressividade.

2.

Vive com a doença de Parkinson.

Abandonou os palcos há sete anos, mas continua com a cabeça viva, continua a pensar na próxima peça que (certamente) encena em si.

Deve ser isso.

Os olhos estão carregados de atores e adereços. Ele olha para quem o olha, mas os seus olhos deixaram de ver o que está fora do seu palco.

3.

Está consciente.

A sua vida depende do esforço de continuar a pensar.

Do esforço de continuar a imaginar textos, peças e atores numa sala invisível.

Do esforço de continuar a encontrar na dúvida e na indecisão o suporte para que o corpo não desista de acordar todas as manhãs.

Quer continuar, ele diz que quer continuar.

"Não tenho medo da morte. Não gostava era de morrer tão cedo. Portanto, não é medo de morrer: é vontade de continuar".

4.

Luís Miguel Cintra tem a doença de Parkinson.

O seu corpo já não lhe obedece, as suas mãos deixaram de ser seguras. As pernas são lentas, arrastam-se - vi-o há três anos no restaurante do Museu do Teatro.

"Já não me fala, Luís?"

E eu a tentar passar despercebido, a achar que ele não me reconhecia.

"Já não me fala, Luís?".

Da mesma maneira que perguntou à jornalista que o entrevistou:

"Como se lembrou de me entrevistar? É que de mim já ninguém fala. As pessoas pensam que morri".

As pessoas pensam que morreu em vida.

Percebemos naquela entrevista que não.

Continua vivo o Luís Miguel.

A encenar peça atrás de peça num palco montado dentro de uns olhos ausentes da tanta vida que carrega.

Um Deus o Luís Miguel.

Rodeado de santos e estátuas sacras numa casa que aposto cheira ao incenso do Olimpo.

Obrigado, Luís Miguel.

Obrigado por continuar a dizer o texto.

Amanhã tentarei outra vez fixar os meus olhos nos teus.

E ouvir.

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