Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

O casamento deveria ser um contrato a prazo

1.

Estamos a meio de agosto.

Falta meio mês para que a vida rotineira regresse - para muitos pode ser uma má notícia (as férias são sempre demasiado curtas), mas para outros é uma verdadeira bênção.

As crianças - para quem as tem - tornam à escola ou à creche. E os casais - heterossexuais ou não - podem voltar a proteger-se com o trabalho, com os almoços fora de casa, com o espaço de reencontro consigo próprios.

Isto de viver tem que se lhe diga.

E quando escolhemos alguém é sempre uma enorme aventura.

2.

Chego então ao ponto que desejo tocar.

Nos últimos anos tem havido mais divórcios do que casamentos.

É um tempo de volatilidade.

Tudo o que era para a vida deixou de o ser. No trabalho dizem-nos que temos de nos preparar porque já não existem trabalhos para sempre. Nos negócios desapareceram as fidelidades. No mercado uma ação pode valer muito hoje e nada amanhã. Nas relações a mesma coisa, os números comprovam-no.

3.

Cresce a frustração e o sentimento de culpa. As pessoas quando casam fazem-no com a ideia de que é para sempre, unem-se com uma ideia de eternidade. Como cada vez é mais difícil que tal aconteça as pessoas frustram expectativas, desiludem-se e aumentam o peso da culpa nas suas vidas.

4.

Escrevo muitas vezes que existe uma reencarnação em vida - somos vários ao longo do tempo em que aqui estamos. A pessoa que eu sou hoje pouco ou nada tem a ver com o que era há 10 ou 20 anos - uma relação íntima é um compromisso complicado, porque uns tempos depois a pessoa que temos ao nosso lado já não é a mesma que conhecemos e nós para ela.

5.

Proponho uma mudança revolucionária: que o casamento seja um contrato a prazo renovado todos os anos com o consentimento das partes.

6.

Todos os anos, nunca a 1 de janeiro para que as pessoas não confundam os desejos de fim de ano com a realidade, os casais aceitam prolongar o casamento mais um ano ou terminam o contrato e seguem a vida sem o sentimento de culpa de terem falhado, de não estarem à altura.

7.

Todos os anos poderíamos celebrar um novo recomeço - o que seria uma maravilha. Ou partir sem o peso de que falhámos perante Deus, o Estado, os filhos e os amigos.

Isso quer dizer que não acredito em casamentos ou relações para a vida? Acredito, claro que acredito.

Quer dizer que o meu casamento está em crise?

Também não.

Por mim, estou disponível para renovar por mais um ano - chegar a uma década de relação é nos tempos que correm uma verdadeira façanha.

Sinto até que o meu casamento será até ao fim dos tempos. Mas a realidade mostra-nos todos os dias que existe um caminho que terá de ser feito.

Porque não aligeirar o peso da culpa?

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