Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Rui Horta decidiu não morrer no Alentejo

1.

Neste dia da República quero abraçar um português maior.

Um homem que na viragem do século, há vinte e dois anos, tinha uma vida invejável.

Honrarias e prémios.
Uma carreira de coreógrafo e bailarino de nível internacional.
Críticas e entrevistas regulares no "Le Monde", no "New York Times", no "Der Spiegel", no "El Pais".
Uma vida pessoal e artística construída em Nova Iorque, Paris, Frankfurt e Munique.

Uma carreira inatacável, um percurso fulgurante.

2.

Hoje, dia da República quero celebrar um homem que há 22 anos trocou tudo isso por uma nova vida.

Longe das grandes cidades.
Longe do ruído das luzes.

Num Alentejo em que poucos acreditavam.

Numa pequena cidade do distrito de Évora por quem se apaixonou na primeira viagem que ali fez.

"Vais trocar Munique, Paris, Lisboa por Montemor-o-Novo?"

Perguntaram-lhe isso várias vezes.

E ele a todos e a todas disse que sim.
Que era exatamente isso que desejava.

3.

O homem de quem vos tenho estado a falar chama-se Rui Horta.

O que decidiu mudar de vida há 22 anos. O coreógrafo e bailarino que trocou os grandes palcos pelo trabalho com uma comunidade de gente sedenta, mas sem experiência artística.

Fundou o "Espaço do Tempo" e transformou-o numa referência cultural do país.

Desenvolveu o talento de centenas de pessoas de todas as idades. Gente do campo, médicas e advogados, cientistas e padeiros, agricultores e professoras, aspirantes a bailarinos e reformadas de Montemor-o-Novo e de outras cidades e vilas alentejanas.

Mais de vinte anos a imaginar espetáculos e a libertar o talento escondido das pessoas comuns.

Mas ao mesmo tempo a servir de albergue criativo a artistas que ali encontraram a inspiração para ser maiores.

Naquele Convento da Saudação muitos devem a Rui Horta uma parte do seu percurso.

O Teatro Praga e o Pedro Penim, hoje diretor do Teatro Nacional.

O Tiago Rodrigues, sem dúvida a figura maior do teatro português, que ali escreveu o "By Heart", porventura a sua criação mais pessoal.

Muitos artistas e aspirantes a artistas ali encontraram o seu lugar.

E muitos dos que não encontraram lugar em lado algum, ali se apaziguaram.

4.

Sei que é Dia da República, mas é hoje que quero dar um abraço a Rui Horta.

Porque a semana passada, o Rui resolveu despedir-se do povo que fez seu.

Com mais de 40 pessoas em palco - todas amadoras e todas de Montemor-o-Novo e de lugares próximos, Rui Horta levou ao palco "Lúmen", o seu espetáculo de despedida.

Eu estive lá.
Testemunhei a força de um teatro esgotado. Um teatro que esteve cheio na sexta, no sábado e no domingo. Mais de duas mil pessoas no seu conjunto, uma parte importante da população de Montemor-o-Novo juntou-se para o aplaudir com lágrimas e felicidade.

5.

Ver toda aquela gente no palco.
Ver o modo como se libertaram.
Ver a forma como gritaram o que tinham no fundo dos seus fundos, como juntos conseguiram criar um corpo único, forte, esmagador.

Um coletivo onde cada um dos seus talentos se tornou maior.

O Rui Horta estava comovido e de consciência tranquila.

Vinte e dois anos após ter chegado ao Alentejo considerou ser o tempo certo para passar o testemunho aos mais novos, aos que formou.

Num país onde é tão difícil abandonar qualquer liderança, Rui Horta voltou a ser igual a si próprio.

Há vinte anos deixou a fama pelo seu pé.
Agora, também pelo seu pé, deixou aos mais jovens a sua obra mais emblemática e ideológica.

Não é para todos, Rui.

Não é mesmo para todos.

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