Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Taremi está a arriscar a vida - não me falem de penáltis

1.

Por estes dias, um jogador iraniano do FC. Porto tem ocupado as primeiras páginas do jornalismo.

Horas de debates televisivos a discutir sobre se Taremi é ou não um ladrão de penáltis.

O presidente da Câmara do Porto chamou idiota a um repórter por este ter ousado fazer uma pergunta ao jogador.

Sérgio Conceição recusou-se a prestar declarações em solidariedade com a perseguição mediática a Taremi.

Nas redes sociais marcaram-se duelos e sessões de cabeçada ao nascer do Sol. Há alucinados à beirinha de um colapso nervoso, de um enfarte ou de um AVC por causa de Taremi - uns porque mergulha e engana os árbitros, outros por estar a ser perseguido por malandros que desejam o mal do Porto.

2.

Para muitos, o futebol é uma questão de vida ou de morte.

Mas para Taremi há coisas um bocadinho mais importantes.

O respeito pela vida humana.

A coragem de respeitar a sua consciência.

O valor da solidariedade.

Sim, Taremi tornou-se uma bandeira no protesto contra a morte de Mahsa Amini, uma jovem de 22 anos, espancada às mãos da tenebrosa "polícia da moralidade".

A rapariga curda cometera um crime terrível: tinha o seu véu islâmico malposto em plena rua. Foi por isso levada para um qualquer lugar e ficou em coma durante três dias.

Amini resistiu três dias.

E após a sua morte as ruas do Irão encheram-se de mulheres em protesto contra um Estado demencial, contra o modo indigno como são tratadas.

Nos protestos morreram mais de trinta pessoas. O regime iraniano, o regime dos "Ayatollah"s", reprimiu as manifestações.

E tem ameaçado de prisão.

Tem ameaçado de tortura.

Tem ameaçado de morte quem se revolta.

3.

Taremi, estrela maior do futebol iraniano, figura amada pelo povo persa, podia estar calado e não fazer comentários, mas não.

Sabendo os riscos que pode correr, sabendo das ameaças à sua própria família, Taremi quis ainda assim prestar solidariedade para com as mulheres do Irão e para com a morte da jovem Amini.

Na sua página de Instagram trocou a sua fotografia por uma imagem do território iraniano coberto de negro.

Influenciou com sucesso outros jogadores a seguirem-lhe o exemplo.

E já antes, no jogo com o Estoril, usara um punho negro em sinal de luto.

4.

Alguns que me ouvem ou leem sabem que sou do Benfica.

Um bocadinho doente, confesso.

Entusiasmado com esta época, admito.

Mas não me venham falar dos mergulhos de Taremi - quero lá saber se se faz ao penálti ou não.

O que sei, o que tenho a certeza, é que Taremi é uma pessoa enorme, um homem com uma coragem e uma retidão de princípios que o distingue da maioria.

É muito fácil abrirmos a boca e dizermos umas coisas.

O difícil é arriscar a vida em nome de uma consciência de bem, de uma espinha direita.

Arriscar a vida.

Não ceder às ameaças.

Poder deixar de jogar na seleção, poder colocar em causa a sua família mais próxima, poder ser preso.

5.

Taremi sabe que tudo isso passou a ser uma possibilidade.

Porque ele não é um anónimo que se revolta numa rua de Teerão. Ele é uma estrela e um dos mais amados iranianos.

O que ele diz tem consequências.

É por isso que ao defender a jovem Amini, ao atacar a repressão do governo do seu país e a cegueira moral dos "Ayatollah"s", Taremi sabe que está a arriscar no limite a sua própria vida.

Não me falem de piscinas ou de penáltis.

Ele está para lá disso - Taremi é um homem exemplar, uma pessoa inteira e admirável.

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