Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.
Microcimentoouvir

Microcimento

Terminou ontem, no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, a inesquecível aventura itinerante da peça "Eu nunca vi um helicóptero explodir", de Catarina Ferreira de Almeida e Joel Neto, encenada por Luísa Pinto e interpretada por um elenco magnífico do qual emerge o imenso actor António Durães. Tive a felicidade e a honra de integrar o espectáculo durante o qual são revividos alguns "Sinais" emitidos na TSF durante a pandemia. Não esquecerei esta experiência marcada pela circunstância grata de ter-se verificado o seu epílogo na cidade onde nasceu o próprio Durães. No jantar da véspera, quando se comentava a qualidade do hotel onde nos hospedaram (excelente, sem dúvida) perguntei ao António Durães se o chão da casa de banho do quarto dele também tinha, como o meu, pegadas para a eternidade. Explico a pergunta: três pegadas de um pé avantajado saltaram-me à vista quando entrei no compartimento. Estranhei, sendo o hotel, de facto, excelente. Mas logo reparei num aviso colocado junto ao lavatório com os seguintes dizeres: "Lamentamos o facto de se encontrarem pegadas marcadas no microcimento do pavimento da casa de banho. Esta situação verifica-se desde a sua construção. Informamos que a casa de banho se encontra devidamente higienizada." Assim explicadas, as pegadas não incomodam, antes estimulam o desejo de nos informarmos sobre o microcimento, a sua enorme versatilidade, impermeabilidade e resistência. O António não pôde responder-me porque tinha pernoitado na casa que mantém na Figueira. Só uma vez, vindo actuar na sua cidade, optou por ficar no hotel. Tratava-se do antigo e emblemático Grande Hotel da Figueira, cuja construção terá determinado o alinhamento da actual avenida marginal. Dessa vez, o actor optou por ficar no hotel onde o pai tinha trabalhado. Aí teve, aliás, o António a sua estreia informal no mundo da representação. Em adolescente chegou a andar por entre as mesas do restaurante explicando aos comensais, em modo teatral, as excelências do repasto ou as características mais macias dos taninos de um certo tinto do Dão. Foi muito bonita e, até, comovente, a história que o grande actor nos contou e que me trouxe à memória o que Eduardo Galeano dizia dos contadores de histórias: que eles "procuram as pegadas da memória perdida, do amor e da dor que não são vistas, mas que não se apagam". Dessa vez em que não foi dormir a casa, na Figueira, o meu amigo estava, afinal, procurando as pegadas que só ele podia ver.

Sinais

Natureza morta e cascas de camarão

Natureza morta e cascas de camarão

O museu de Belas Artes de Buenos Aires, o mais importante museu argentino, expõe por estes dias obras do artista neerlandês Rob Verf feitas com lixo urbano. O lixo enquanto natureza morta, eis o filão de Verf que, deste modo, nos confronta com a beleza paradoxal do lixo, a matéria prima das suas esculturas. Ele fala da sua própria criação artística a partir do lixo como uma reflexão sobre "a evanescência dos prazeres urbanos". E lá temos, entre as mais consagradas obras da colecção do museu, as belas esculturas ou instalações produzidas com a alfurja da urbe. É um filão inesgotável. O sítio electrónico do governo argentino, onde colho a notícia, lembra que a cada dois segundos se produz uma tonelada de lixo no país. Ora aqui está uma ideia que talvez devesse merecer a atenção de Carlos Moedas, agora que o autarca acaba de anunciar uma "reforma estrutural" na recolha do lixo em Lisboa. Moedas já anunciou a intenção de negociar com as juntas de freguesia a solução para a recolha do lixo urbano na capital, nada o impede de desafiar os artistas plásticos a um contributo nesse, pelos vistos, ousado plano de intervenção.

O ano em que o calendário avariou

O ano em que o calendário avariou

Faz de conta que estou a conversar com um poema do Manuel António Pina intitulado "O ano em que o calendário avariou". Nesse faz de conta deixo entre aspas os versos do Pina cruzados com a leitura a meia voz de títulos de jornal ou com a reprodução de um discurso tagarela mais ou menos enviesado, apanhado entre o zumbido das moscas no espaço público. Nas conversas de surdos dos cafés há muito disto. Um dos parceiros do casal vai lendo, sem qualquer enquadramento ou anotação crítica, os avulsos títulos da manhã que o parceiro acolhe encolhendo os ombros ou soltando ais do reumatismo.

Como a piroga respeita a água

Como a piroga respeita a água

O coronel Carlos Matos Gomes, comissões militares em Angola, Moçambique e Guiné, onde teve papel muito activo na criação do Movimento dos Capitães, deu nova e formidável missão ao escritor Carlos Vale Ferraz: que nos transportasse ao mais profundo sul do território administrado por Luanda, esmagando deliberadamente o tempo histórico do romance, que é o tempo histórico da memória. Deste modo, o autor que já nos tinha dado, mais do que uma vez, um nó-cego, conduz-nos, com o magnífico romance "O gémeo de Ompanda", a esse fim do mundo onde reinou Mandume, o monarca a quem missionários protestantes alemães deram ferramentas que o tornaram poliglota, Eis-nos nas vastas terras da nação cuanhama, dilacerada a régua e esquadro, submetida, por sucessivas cliques políticas, a diversas formas de representação do Estado-Nação, desde que vingou, na Conferência de Berlim, o designado "Princípio da Ocupação Efectiva". O tempo subsequente comprovou que essa é roupa de outro corpo para os que apenas fazem vénia ao deus Kalunga.

A isionomia e o inominável

A isionomia e o inominável

Peço licença para trazer a primeiro plano algumas das trinta vozes de artistas brasileiros que assinam um manifesto divulgado este fim de semana contra o inominável. Tem o manifesto 13 minutos e, nas palavras dos autores, foi feito de modo a "lembrar, para sempre" os anos vividos sob a gestão do "mais tosco dos toscos, o mais perverso dos perversos, o mais baixo dos baixos, o pior dos piores" mandatários da história brasileira. Escrito pelo músico e jornalista Carlos Rennó, com música de Chico Brown e Pedro Luís, o Hino ao Inominável reúne as vozes mais diversas da cena brasileira, de Chico César a Lenine, de Paulinho Moska à divina Mónica Salmaso.