Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Conversa de rua em Silves

Uma pequena esplanada num dos raros recantos com sombra, na zona histórica de Silves. Dois funcionários da limpeza urbana trocam frases com uma cidadã de língua inglesa que, amavelmente, tenta estabelecer, no curto e tacteado domínio da língua portuguesa, pontes com o que julga ser uma abordagem cortês. Não no sentido do galanteio, mas do serviço público que a cortesia também pode e deve ser.

Tomemos que um dos autóctones teria feito uma apreciação sobre a magnificência do refresco que a turista se preparava para encetar. Tomemos que tal apreciação continha elementos pícaros sobre a sede e os tantos modos de a saciar. Esse seria o início de conversa que me escapara, vinha ainda envolvido na beleza das fotos de André Boto expostas na pequena igreja da Misericórdia, frente à Sé. Na verdade, apanhei os apartes dos cantoneiros sobre o refresco da turista já em andamento, ela sorrindo e repetindo, o dedo apontado ao que a dessedentava: "É bonito!". E um deles: "É bonito? Bonita é você". Breve pausa e o improvisado professor de línguas propõe, na terra onde Zurara acabou de escrever a Crónica da Tomada de Ceuta, uma palavra certeira: "Gostoso! Isso é gostoso". Qualquer detecção de um sentido figurado subsidiário de novelas brasileiras é abuso de leitura meu. Aliás, não me peçam que fique ali especado a testemunhar jornadas empíricas de apuro da língua.

De qualquer modo, ainda escuto a turista repetindo: "Gostoso". A rua é um dicionário valioso. Mas já o cantoneiro urbano reproduz uma fala breve, sacada de série humorística ou aparentada como se apanhasse de uma macieira uma maçã, mesmo bichosa: "A língua portuguesa é muito traiçoeira". Risinhos cúmplices dos cantoneiros já sem munições em português silabado para turista apanhar pela rama. E a turista, ainda sorrindo, ainda soletrando uma possibilidade de sentido: "A língua portuguesa...". A conversa estava terminada por falta de repertório dos locais. A turista bebericou o seu refresco e eu fui até ao Centro de Estudos Luso-Árabes, onde me esperava outra bela exposição de fotografia: "Encantamentos", de Jorge Graça. Pelo caminho, um letreiro chamou a minha atenção: "Sapataria Chelb Shoes". Ao usar o nome árabe de Silves para anunciar sapatos e o nome inglês de "sapataria" para alargar o leque de possíveis compradores talvez a senhora da loja faça um pouco mais pela turista que, entretanto, acaba o seu refresco. Porque, como lembra Adalberto Alves, num texto para a exposição do Centro de Estudos Luso-Árabes sobre lendas e olhares encantados, "o passado árabe dissolveu-se em nós e nós nele, sem quase nos darmos conta disso, e o perfume da sua civilização, ficou como legado imperecível de uma perdida Idade de Ouro: mil pomos, versos, cultivos, sabores e saberes".

Possa a turista acabar o seu refresco e descer a rua até à exposição dos "Encantamentos", de Jorge Graça. "É bonita".

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