Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

O enigma no friso da matriz de Arronches

Quando Saramago passou em Arronches ainda não tinha sido organizado, no coro alto da igreja matriz, o museu de arte sacra, com peças vindas dos montes em redor, quando as igrejas fecharam e os padres abalaram. O povo dessas vastas terras foi trazendo os seus santos para a forte Arronches (como é referida por Camões nos Lusíadas) onde três torres sineiras alinhadas na praça central marcam o tempo de três poderes, o do município, o das Misericórdias e o da Igreja. Quando Saramago aqui passou viu na portada os sinais da escola de Nicolau de Chanterene, viu querubins e guerreiros, mas iria com pressa e deixou-se prender adiante pelo pórtico renascentista, pela galilé e pelo claustro da igreja de Nossa Senhora da Luz, discreto e de boa sombra, como o descreve. O repórter abana-se com o resto da frase de Saramago: "no sufocante calor em que o sol se desmanda".

Assim estava o início de tarde de ontem no belo largo de Arronches onde a sombra das laranjeiras nada pode contra o sol desmandado. Mas valeu a pena esperar por Júlia Adega, professora reformada e voluntária do projecto Igreja Aberta, iniciado há 20 anos. Isso me permitiu ver para lá da portada e das oito cabeças de anjo da frontaria. Júlia mostrou-me o lavabo do século XVIII com dois golfinhos em mármore, os belos azulejos dos altares-laterais, a belíssima abóbada sobre o altar-mor, o cadeiral. Aquele cadeiral pede, na fé e na inteligência da antiga catequista, um bispo a condizer. Algures na névoa do tempo aqui terá havido bispo, sustenta a velha professora que, por minha causa, passou a noite em busca de uma das cinco pontes de que Saramago garante estar Arronches rodeada.

Júlia contou a este pobre escrevedor que só se lembrava de quatro, e de tudo o que a Arronches respeita, das pedrinhas em declínio, dos antigos oleiros, e dos tantos barbeiros sobre os quais escreveu Francisco Mendes uma brochura. De tudo se lembrava, menos da dita ponte. Só ontem, depois de muito magicar, e de muito perguntar, se lembrou da tal quinta ponte, mais afastada, já no limite do concelho, ligando Arronches a Santa Eulália, onde tantas vezes foi em menina, na carroça do pai. A quinta ponte tornara-se assim, para a professora Júlia, uma lacuna como a do bispo que Arronches teve, sim, afinal, mas em longínquas terras.

Leva o repórter para leitura mais demorada outra brochura de Francisco Mendes sobre D. Francisco Xavier Aranha que, aqui nasceu em finais do século XVII e cujo retrato está na sacristia da matriz de Arronches. D. Francisco Aranha foi bispo arronchense, mas na diocese brasileira de Pernambuco. À igreja da sua terra doou, entretanto, o órgão cujo som já levou Júlia mais perto dos anjos. Outra alegria de Júlia foi aquela nota deixada por monsenhor Luciano Guerra, reitor do Santuário de Fátima, no livro de visitas da igreja, há duas décadas: "Há muitos anos que me atrai este morro altaneiro e sublime, visto da estrada. Chegou o dia, agradeço a Deus por ter sido muito bem acolhido pelas voluntárias presentes". Eu agradeço a Júlia, mesmo se daqui saí intrigado com aquela inscrição no friso do pórtico que escapou a Saramago: "Paraíso para sempre. Inferno para sempre". O repórter ainda vai roído pelo enigma quando atravessa a aldeia de estranho nome: Nossa Senhora dos Degolados.

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