TSF Pais e Filhos

Como a intuição não chega e eles não nascem com livro de instruções, a TSF propõe um programa para partilhar ideias, conselhos de quem sabe (desde os conselhos técnicos de pediatras e psicólogos, aos conselhos de pais), propostas de lazer, de brincadeiras, de passeios e reportagem. Sem nunca deixar de responder às dúvidas dos pais, vamos também ouvir os filhos. Com coordenação de Rita Costa.
De segunda a sexta, às 08h40, com repetição às 16h40. Edição alargada à terça-feira, às 18h45.

Não falar de violência sexual contra crianças "é dar mais espaço aos abusadores"

Ângelo Fernandes, autor do livro "Do que falamos quando falamos de violência sexual contra as crianças", defende a urgência de pôr fim a um tabu para acabar com um fenómeno que tem consequências devastadoras para as crianças.

Uma em cada cinco crianças é, foi ou será vítima de violência sexual durante a infância. Os números são do Conselho Europeu e alertam para uma realidade tantas vezes escondida. Ângelo Fernandes, fundador da associação Quebrar o Silêncio, a primeira organização de apoio para homens e rapazes vítimas de violência sexual, lamenta que este seja ainda um tema tabu quando numa sala de aula, seis das crianças podem ser vítimas de abuso sexual. Por isso, escreveu o livro "Do que falamos quando falamos de violência sexual contra crianças".

"As pessoas não falam, há muita desinformação, há muita crença de que só acontece aos outros, só acontece noutras famílias e não é esta a realidade, portanto, não falar de violência sexual é dar mais espaço aos abusadores para poderem abusar das crianças", afirma Ângelo Fernandes, que defende que é preciso perceber que há muitas formas de violentar sexualmente uma criança.

"Muitas vezes quando falamos de violência sexual contra crianças, há ideia de que é só quando há uma violação ou atos penetrativos e é importante perceber que o espetro da violência sexual abrange muito mais formas de abuso", sublinha o fundador da associação Quebrar o Silêncio e técnico de apoio à vítima. Obrigar uma criança a assistir à masturbação de um adulto, expô-la precocemente a conteúdos pornográficos ou obrigar duas crianças a terem contactos sexualizados, são exemplos dados por Ângelo Fernandes de formas de violência sexual, que nem sempre são reconhecidas pelas pessoas, por não haver contacto físico entre o adulto e o menor. O que é certo, sublinha, é que uma criança vítima de abuso sexual sofre um trauma com consequências que podem ser devastadoras.

No livro "Do que falamos quando falamos de violência sexual contra crianças", que vai chegar às livrarias no dia 13 de outubro, Ângelo Fernandes tenta fazer com que este problema deixe de estar oculto e fornece ferramentas preventivas para pais, mães e cuidadores. "Quando é que acontece? Em que circunstâncias isso acontece? Como é que os abusadores chegam e silenciam as crianças? Todo este universo pode ser avassalador", acredita. Mas não saber, não falar é o pior.

Muito se tem falado dos abusos sexuais na Igreja e Ângelo Fernandes acredita que "o problema dos abusos sexuais não está na estrutura da Igreja, mas está na Igreja porque os abusadores se infiltraram na igreja. Os padres são vistos como pessoas de confiança, pessoas com quem os crentes desabafam, são vistos como uma bússola moral e usam essa posição para chegar às crianças também", acredita.

Ângelo Fernandes explica que o abusador passa o tempo a conquistar a confiança não só da criança, mas especialmente das pessoas adultas e dos cuidadores, porque "os abusadores trabalham para não serem vistos como alguém suspeito, alguém estranho, alguém perigoso, porque se não, não têm assim muito espaço". "Há determinadas profissões que têm historicamente alguma confiança preestabelecida, é o caso dos padres, dos professores, dos médicos ou outros profissionais de áreas ligadas ao cuidado", mas o abusador pode estar na família e até dentro de casa.

E quando se fala de um menor, vítima de violência sexual, defende Ângelo Fernandes, é preciso falar cada vez mais em trauma. "O impacto traumático pode ter um efeito devastador nas crianças."

Por tudo isso, o autor do livro "Do que falamos quando falamos de violência sexual contra crianças" aconselha os pais a informarem-se. "Investiguem, leiam porque quanto mais souberem sobre determinado tema, melhor se sentirão e maior consciência terão dos efeitos e de como proteger as crianças."

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