Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

Da palavra à ação? COP27 com acordo "histórico" mas "aquém" na redução de emissões

Após duas longas semanas, a COP terminou no Egito com dois textos principais, nomeadamente um acordo para a criação de um fundo para as "perdas e danos", mas há um ponto "crucial" que não ficou claro nas conclusões da cimeira do clima: a mitigação e o fim dos combustíveis fósseis. Por isso, Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, diz que o "principal mote" desta conferência "deveria ter sido a implementação", no entanto, "não chegámos lá" no que toca à redução das emissões.

Começou a 6 de novembro e devia ter terminado no dia 18, mas a falta de entendimento entre vários países fez com que a COP27 se prolongasse até altas horas da madrugada de dia 20. Duas semanas depois, a cimeira do clima no Egito acabou com dois textos principais: uma declaração final sobre a mitigação e a redução de emissões de gases com efeito de estufa e um acordo para a criação de um fundo para as "perdas e danos". Para Francisco Ferreira, da associação ambientalista Zero, "esta foi uma conferência onde a implementação deveria ter sido o principal mote para passarmos das palavras às ações, mas no aspeto mais importante, que é a redução de emissões, não chegámos lá".

"Não nos esqueçamos que nestas conferências há muitas decisões, textos, muitas páginas. Os principias textos foram, sem dúvida, a questão que fala das perdas e danos, que não deixa de ser algo relacionado com a implementação, mas na parte da mitigação e dos objetivos de redução das emissões, que é um aspeto crucial da ação, não se avançou em relação àquilo que já vinha da conferência de Glasgow", considera o especialista.

"Perdas e danos": o que são e o que significa o fundo aprovado na COP27

As "perdas e danos" foram um dos principais temas em cima da mesa. Francisco Ferreira refere que a mitigação "é o mais estruturante" e o que "resolve o problema das alterações climáticas".

"Esse é o caminho a seguir. Temos que nos adaptar a este clima em mudança do ponto de vista das infraestruturas e de várias áreas, desde a saúde aos ecossistemas", afirma, sublinhando que "no dia a dia já estamos a sofrer eventos meteorológicos extremos, secas violentas e monções que se traduziram em cheias enormes, como no Paquistão, furacões que acabam por ter uma gravidade muito maior pela forma lenta como se deslocam". "As populações afetadas por estes fenómenos ficam com a sua economia e com o lugar onde habitam completamente destruído."

Francisco Ferreira explica que "para estas catástrofes, agravadas pelas alterações climáticas, as perdas e danos são como que um seguro que pretende reconstruir as zonas devastadas".

"Em 2013, nesta conferência do clima, mas em Varsóvia, na Polónia, decidimos avançar com um mecanismo para olhar para esta questão. Esse mecanismo falava de um fundo que operacionalizasse estes pagamentos em caso de necessidade e isso só agora é que conseguiu ser concertado. Ainda vai demorar algum tempo até estar a funcionar e é preciso que haja países doadores. Temos uma abertura ainda para decidir nos próximos um ou dois anos toda esta operacionalização, porque um dos conflitos grandes na conferência foi se deveriam ser apenas os países desenvolvidos ou também outros em desenvolvimento mas com poder económico para o fazerem, ou seja, países ricos do Médio Oriente e a China, e quem é que beneficia, porque as Nações Unidas, dentro dos países em desenvolvimento, define os países mais vulneráveis, e também os pequenos estados insulares. Isso acabou por ficar em aberto. O dinheiro nunca será muito em relação ao necessário e há que estabelecer prioridades."

O presidente da Zero classifica o fundo acordado no Egito como "absolutamente histórico". "É algo que inúmeros países, que estão a ter o seu território e populações afetados à custa das consequências das alterações climáticas, mereciam. Já vem tarde e isto foi o avanço mais importante e relevante desta conferência, num quadro de justiça climática que deve estar sempre enquadrado."

Mitigação "muito aquém" e a falta de ambição para o fim dos combustíveis fósseis

Outro dos temas em cima da mesa foi a mitigação das emissões de gases de efeito de estufa e do aquecimento global. Tendo em conta o texto da declaração final desta conferência, segundo Francisco Ferreira, "esta foi a área que ficou mais aquém".

"Sem dúvida que se repete a ideia de que nós não devemos ir além de um aquecimento de 1,5 ºC em relação à Era pré-industrial e já estamos a 1,1 ou 1,2 de aquecimento, a nossa folga é cada vez menor. Esperava-se que houvesse uma linguagem muito clara no sentido de melhorar os objetivos de redução de emissões. Note-se que a União Europeia deu um sinal ao passar de 55% para 57% a redução de emissões entre 1990 e 2030, apesar de estar ainda longe dos 65% de redução para estar em linha com o Acordo de Paris", afirma.

O especialista adianta ainda que "havia questões cruciais, como o fim dos combustíveis fósseis, principalmente do carvão, e a necessidade de termos um pico de emissões antes de 2025", mas "infelizmente isso não ficou nas conclusões desta conferência".

E por falar em combustíveis fósseis, a Climate Action Network classificou os EUA, a Rússia e o Brasil de "fósseis colossais" nesta COP27.

Na perspetiva de Francisco Ferreira, os EUA "tiveram uma conferência em que insistiram muito" no mercado de emissões. "A prioridade deve estar acima de tudo na redução de emissões, o mercado sem dúvida que pode ser um modo para facilitar a redução das emissões, mas não é aquilo que é mais decisivo em termos dos objetivos de diminuição ou de estratégia para a mitigação. Todas estas questões da neutralidade e da compensação - um conjunto de palavras que começam a fazer parte da conversa climática - foram levadas um pouco ao extremo pelos EUA."

Já relativamente à Rússia "teve muito a ver com o facto de ser um dos países que tem um considerável nível de emissões e que tentou vender a energia nuclear. Depois, nesta fase deveria construir a paz, um elemento essencial da política climática e não o está a fazer."

E ainda o Brasil, que "foi mais a herança de quatro anos do governo Bolsonaro e o contraste com a visita de Lula da Silva e as promessas que fez, inclusive, de uma COP na Amazónia nos próximos anos". "Há aqui uma esperança que vamos ver até que ponto se concretiza na salvaguarda e na importância da Amazónia, além da própria política de redução de emissões que o Brasil também necessita."

Esta falta de ambição para reduzir as emissões tem muito a ver com o facto de países como a Índia e a China "estarem muito dependentes" dos combustíveis fósseis: "Foi isso que foi frustrante há um ano em Glasgow e que agora continua a não permitir que fique claro nos textos a ideia de diminuir e, acima de tudo, acabar com os combustíveis fósseis. Sabemos que principalmente o carvão é o grande responsável na produção de eletricidade à escala mundial, pelas emissões de gases com efeito de estufa e o aquecimento global. Precisamos mesmo de apostar na eficiência energética e nas renováveis, mas muitos países que têm estes recursos fósseis não querem abrir mão."

Neutralidade carbónica em 2045. Qual é o papel de Portugal no futuro?

O primeiro-ministro António Costa esteve presente nos primeiros dias da cimeira do clima no Egito e considerou que Portugal está em condições de antecipar a neutralidade carbónica para 2045. Francisco Ferreira defende que esta é "uma boa notícia" e no futuro "até podemos antecipar ainda mais", reconhecendo, no entanto, que "não estamos bem em setores como os transportes, a eficiência energética e os incêndios florestais".

O responsável pela associação ambientalista Zero destaca ainda uma promessa do ministro do Ambiente de "conseguirmos ter Portugal numa posição de liderança negocial no quadro da União Europeia e até de exposição". "Estas conferências têm também uma área onde os países apresentam qual é o seu trabalho e as suas áreas de ação, promovem muitos eventos e Portugal promete essas iniciativas no próximo ano, o que é bem-vindo."

Manifestações pelo clima e dicas para travar as alterações climáticas

Durante as duas semanas de COP houve manifestações não só no Egito, mas também em Portugal, com estudantes a pedirem justiça climática e a exigirem a demissão do ministro António Costa Silva, ocupando escolas e faculdades em Lisboa.

Francisco Ferreira indica que os protestos pelo clima "foram muito importantes" tanto no Egito, onde "foram limitadas ao espaço das Nações Unidas mas tiveram muitas centenas de participantes", como em Portugal, onde "se juntaram dezenas de organizações, cada uma com os seus objetivos". "Umas a pedirem a demissão do ministro António Costa Silva, outras que estiveram presentes por uma solidariedade que é comum no combate às alterações climáticas, em que o importante é o passar à ação por parte do Governo e das empresas."

"O pior setor que temos em Portugal em termos de emissões é o transporte rodoviário. Vamos todos fazer um esforço para usarmos mais o transporte público, modos suave de transporte, andar a pé ou de bicicleta. Temos que aproveitar os custos muito mais reduzidos do transporte público", apela.

"Temos que mudar a nossa alimentação. A agricultura é o único setor em Portugal que não está a cumprir as metas internas, estamos a aumentar as suas emissões, nomeadamente estamos o número de efetivos bovinos, suínos e toda a poluição que isso acarreta. Temos que dar prioridade a uma mobilidade mais sustentável e a uma alimentação mais amiga da saúde, do ambiente e do clima", conclui.

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