Verdes Hábitos

Agir é preciso! As mudanças de hábitos em tempos de emergência climática. As grandes questões, os desafios, os problemas relacionados com a sustentabilidade e o ambiente. "Verdes Hábitos" na TSF com Carolina Quaresma e a Associação Ambientalista Zero. Às segundas-feiras depois das 20h00 e sempre em tsf.pt.
(Até 2021 o programa foi da autoria de Sara Beatriz Monteiro e Inês André de Figueiredo).

"Pouco empenho." Grandes marcas não cumprem metas de redução de plástico

O relatório que mostra o progresso do Compromisso Global por uma Nova Economia dos Plásticos, da Fundação Ellen MacArthur e das Nações Unidas, revela que as grandes marcas, empresas e retalhistas não vão cumprir o objetivo de utilizar a 100% embalagens de plástico reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis até 2025. Para Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, esta falha é fruto "do pouco empenho" das marcas em alterar os seus modelos de negócio, implementando, por exemplo, sistemas de depósito, de reenchimento, ou de repensar as embalagens.

As grandes marcas e empresas não vão cumprir o objetivo de usar apenas embalagens de plástico reutilizável ou reciclável até 2025. Pelo contrário, a utilização de plástico continua a aumentar significativamente. As conclusões são de um novo relatório que mostra o progresso do Compromisso Global por uma Nova Economia dos Plásticos, elaborado pela Fundação Ellen MacArthur em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Ambiente. Susana Fonseca, da associação ambientalista Zero, explica que "a evolução dos compromissos assumidos não está a ser aquela que é a desejada" e que o que se prevê é que "muitas das metas não venham a ser cumpridas por parte destas marcas até 2025".

O Compromisso Global por uma Nova Economia dos Plásticos é uma iniciativa que junta empresas, marcas e retalhistas, que "têm uma quota-parte maior de responsabilidade na utilização de embalagens de plástico a nível mundial", e que "se comprometeram a um conjunto de metas relacionadas com o uso do plástico, nomeadamente, garantir que 100% das embalagens plásticas sejam reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis até 2025".

Além disso, este compromisso global quer também "aumentar a integração de material reciclado pós-consumo em todas as embalagens plásticas, diminuir o uso de plástico virgem, começar a implementar modelos diferentes de embalagem, apostando na reutilização e no reenchimento, e eliminar todas as embalagens plásticas que sejam problemáticas e desnecessárias".

Redução de plásticos: o que está a falhar?

Fazendo uma análise do relatório, Susana Fonseca refere que existe um aumento no uso de plástico virgem: mais 4,3 por cento entre 2020 e 2021. Já na área da reutilização, houve "uma redução da utilização de embalagens reutilizáveis".

"Estes resultados são fruto também do pouco empenho que muitas destas marcas têm demonstrado em alterar, de forma significativa, os seus modelos de negócio. Não tem havido também por parte dos governos as medidas necessárias para conduzir estas empresas a fazerem diferente, a questionarem os seus próprios modelos de como embalam os alimentos, de como os distribuem e o tipo de materiais que utilizam", considera a especialista.

"No caso dos acordos voluntários, como é o caso deste compromisso, as marcas comprometem-se a cumprir com determinadas obrigações e metas, mas é algo voluntário, não vão ser penalizados. No máximo podem ser convidados a sair do compromisso, mas não há aqui nenhuma penalização extra. O próprio relatório identifica que os acordos voluntários não são a solução e que precisamos de outro tipo de medidas que incentivem as marcas e os retalhistas a fazer muito mais e diferente daquilo que tem feito até agora", completa.

Os impactos ambientais do plástico descartável e a importância da reutilização e redução

Se estas metas continuarem a não ser cumpridas e a utilização de plásticos continuar a aumentar, quais serão os impactos ambientais para o planeta? A opinião de Susana Fonseca é clara: esse é "um cenário que não podemos considerar".

"Não podemos considerar um cenário de manter as coisas como estão, porque não temos tempo e condições para o fazer e se queremos garantir condições de bem-estar para as gerações presentes e futuras, quer seja pela saúde humana, quer seja pela diminuição de poluição ambiental, neutralidade carbónica e alterações climáticas, temos que reduzir de forma significativa esta quantidade de embalagens descartáveis e há que exigir muito mais ação por parte das marcas, dos retalhistas e dos governos", sublinha, avançando que as organizações não-governamentais (ONG) ligadas ao ambiente e à sustentabilidade, estão, neste momento, a tentar que haja um "impulso muito maior às áreas de reutilização e de redução" ao nível da União Europeia.

"Há medidas muito importantes que têm que ir para o terreno, por exemplo, colocar limites no uso de embalagens descartáveis e avançar-se muito mais em termos de incentivos e penalizações no sentido de garantir a adoção dos modelos de reutilização e redução."

Segundo Susana Fonseca, "cada marca precisa de executar uma estratégia de reutilização ambiciosa, uma reutilização de uma forma abrangente", através não só da implementação de sistemas de depósito, mas também de reenchimento, e de repensar as embalagens, dando o exemplo dos champôs sólidos: "Nós temos aí uma grande redução de embalagens."

"É muito importante que haja um assumir de metas de redução da utilização de matérias virgens e um trabalho mais intenso no sentido de garantir que os materiais que estão a ser usados são passíveis de serem reciclados. As marcas têm que ter um papel mais ativo na garantia de que os materiais que usam são facilmente recicláveis e que também no terreno existe um sistema montado que garanta que aquela embalagem não vai parar a um aterro, não vai ser abandonada no ambiente e volta a ser integrada no sistema. As empresas têm cada vez mais que assumir esta responsabilidade que, no caso europeu, já está inscrito na lei, mas que acaba por, muitas vezes, não estar a ser implementado da forma correta, fazendo com que haja um grande desperdício de embalagens e um grande número de embalagens de plástico e outros materiais que acabam a não ser reciclados", sustenta.

O primeiro Tratado Global para os Plásticos

Este relatório da Fundação Ellen MacArthur surge no mês em que membros das Nações Unidas vão reunir-se para iniciar as negociações sobre o primeiro Tratado Global para os Plásticos. A especialista afirma que este é um tratado que "forma um mandato que foi aprovado e é, de facto, animador". No entanto, há posições a serem "veiculadas e apresentadas" por parte de marcas, retalhistas e produtores que "não vão ao encontro daquilo que é, no nosso entendimento, o mandato que foi aprovado".

"É um mandato que tem uma abrangência grande em termos de todo o processo produtivo e de utilização do plástico, que apresenta alguma ambição e que olha para o plástico como um problema. Para nós, enquanto ONG, é muito importante que nós consigamos ter um tratado que é ambicioso e que tenha metas concretas que têm que ser cumpridas e que passem muito por esta lógica da redução, da reutilização e não apenas da suposta panaceia da reciclagem", defende.

Susana Fonseca considera que "é muito importante" ter a noção de que "fazer mais do mesmo ou um bocadinho ao lado não é suficiente para resolver este problema e que acordos voluntários são extremamente limitados na sua capacidade de mudar a realidade. Este tratado deve introduzir ferramentas mais fortes e eficazes que obriguem os países e as marcas a assumirem a sua responsabilidade de forma diferente e a agirem de forma muito efetiva".

"Conjugar medidas." O trabalho dos governos para reduzir o plástico

Os governos também devem agir e aplicar medidas para combater o uso excessivo de plástico. Susana Fonseca dá o exemplo de Portugal, que já tem algumas medidas em lei, mas que ainda não foram implementadas: "No caso da componente da reciclagem temos previsto, desde 2018, um sistema de depósito para embalagens de bebidas descartáveis que seria uma excelente forma de conseguir que, por dia, mais quatro milhões de embalagens de plástico, de metal e de vidro fossem encaminhadas para reciclagem, em vez de estarem a ir parar a aterro ou a serem queimadas ou abandonadas no ambiente. Na lei já deveríamos ter este sistema a funcionar desde janeiro deste ano, estamos em novembro e nem sequer sabemos como vai ser implementado."

"Os governos têm de ser muito mais ativos e muito mais eficazes na implementação de medidas que, muitas vezes, até já estão na lei. Portugal tem, por exemplo, várias metas de reutilização para embalagens de bebidas que serão definidas até ao final deste ano, mas há outras áreas que não estamos ainda a trabalhar, como o envio de encomendas. Precisamos que os governos tenham coragem e visão estratégica no sentido de implementarem medidas, nomeadamente os incentivos", reforça, referindo o caso do takeaway, "em que temos uma taxa sobre as embalagens de plástico descartáveis e a partir de janeiro do próximo ano teremos sobre as embalagens de alumínio". "Aquilo que defendemos é que a partir de 2024 entre a obrigação dos próprios estabelecimentos terem à disposição do cliente soluções reutilizáveis e que todas as embalagens descartáveis sejam taxadas."

"É muito importante conjugar as medidas. Não é só propor uma meta. É propor uma meta, mas depois temos que criar as condições para que essa meta se torne realidade. Esse é um trabalho e uma responsabilidade dos governos que não devem tentar passar essa responsabilidade para acordos voluntários ou deixar na mão de marcas e empresas que, quando são deixadas a si próprias e numa lógica de compromissos voluntários, os resultados ficam muito aquém do desejado para a sociedade", acrescenta.

O que fazer para reduzir o uso de plástico no dia a dia?

Também em casa, os consumidores podem diminuir a utilização de plásticos. Como? Susana Fonseca dá algumas sugestões:

"Evitar tudo o que são embalagens, comprar mais a granel, levar as próprias embalagens, recipientes e sacos aquando da ida ao takeaway, à charcutaria, ao talho ou à padaria, optar sempre por opções reutilizáveis quando elas existem por parte de quem está a fornecer o produto e sensibilizar as marcas para a necessidade de oferecerem soluções diferentes."

"Muitas vezes há pessoas que estão sensibilizadas e disponíveis para reencher os seus produtos, para utilizar embalagens reutilizáveis, mas essas soluções não estão disponíveis. É importante que assumamos o nosso papel enquanto cidadãos de pressionar as marcas e demonstrar que queremos que elas tenham uma conduta diferente e isso também vai ajudar o trabalho das ONG e dos próprios governos para implementar medidas mais concretas e promover estas soluções sustentáveis", conclui.

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